terça-feira, 10 de maio de 2011

Meditação Azul...



OUTONO

As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.

E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.

Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.


Rainer Maria Rilke


*IMAGEM: "Meditação Azul". Pintura de Ana Luisa Kaminski



terça-feira, 26 de abril de 2011

Cinzas e Estrelas



Cinzas & Estrelas


Chuvas cósmicas e vôos
no intra-caos abissal
cometas ariscos, poeiras
gotas, pingos, vendaval
acontecem nas manhãs
molhadas-móveis de maio
constelações, conjecturas
das mil danças, o ensaio...

Cristais, anéis, elipses
luas e espirais
galáxias fumegantes
e pérolas astrais
estrelas trituradas
fuligens, sais, vapores
lampejos, cintilâncias
memórias de amores...

Cacos de conchas, luzes
céus e pratas marinhas
águas, ritmos, rituais
incandescentes entrelinhas
encontros e correntes
colares, curvas, caracóis
no espaço livre e nebuloso
do mergulho entre-lençóis...

Cinzas de sóis e sonhos
restos, farelos, grãos
adornando pés, cabelos
pescoços, seios, mãos
na travessia da noite
brilhos, pós e pedrarias
fios de nuvens violeta
fiapos de fantasias...

(Ana Luisa Kaminski)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Piano Onírico...



En una canción de Tom Waits
Marc Chagall
precede a sus dedos
enviar en las nubes.

Incluso gatos
caminando en el lienzo.
Llevar los colores del cielo.

En una canción de Tom Waits
un hombre y un gato
Hablaban.

El hombre había dejado
las palabras,
el gato su olor.

El hombre y el gato
caminaron a través del cielo.
Colores de goteo
entre el tejido,
el viento,
Algunos pincel
y la música.


(ALESSANDRO LUZZU)





IMAGEM: "PIANO ONÍRICO". Pintura de Ana Luisa Kaminski

terça-feira, 22 de março de 2011

Transparências...



Semelhante à imóvel
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa

Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem

Semelhante ao disperso ao ínfimo chama-se agora aqui o sono da erva a ligeireza livre
a nuvem sobre a página.


Antonio Ramos Rosa


*Pintura de Ana Luisa Kaminski

sexta-feira, 11 de março de 2011

Contempla o teu viver que corre...


Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo
Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
“Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas”
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
MORRE O AMOR DE UM POETA.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto
Não cabe no meu canto.


(Hilda Hilst)


PINTURA DE ANA LUISA KAMINSKI
"OLHAR ORQUIDAL ROSADO" ou "CONFLUÊNCIAS RÓSEAS"

sexta-feira, 4 de março de 2011

Una farfalla che suona...



Sembri una farfalla che vola,
sembri un organo che suona.
il tuo fiore circonda le mie vene,
paradiso dei sofferenti,
angelo dalle ali di seta
non volare mai dal mio tetto,
circonda di te il mio sguardo,
dedica a me il tuo amore.
Sembri una luce azzurra,
sembri la primavera verde;
sei la gioventù dei miei anni,
sei l'ombra dei miei passi,
soggetto d'amore, soggetto di vita.



(GENNARO KELLER, "ALI DI LIBERTA' ovvero LA MUSICA NEL VENTO")




Que as águias nobres do teu verso esvoacem
alto, no Azul, por entre os sóis e as galas,
cantem sonoras e cantando passem
dos Anjos brancos através das alas...

E canta o amor, o sol, o mar e as rosas,
a da mulher a graça diamantino
e das altas colheitas luminosas
a lua, Juno branca e peregrina.

Vibra toda essa luz que a do ar transborda
toda essa luz nos versos vai vibrando
e na harpa do teu Sonho, corda a corda,
deixa que as Ilusões passem cantando.

Na alma do artista, alma que trina e arrulha
Que adora e anseia, que deseja e que ama
Gera-se muita vez uma fagulha
Que se transforma numa grande chama,

Faz estrofes assim! E após na chama
do amor, de fecundá-las e acendê-las
derrama em cima lágrimas, derrama,
como as eflorescências das Estrelas. . .

(Cruz e Sousa)
PINTURAS DE ANA LUISA KAMINSKI

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Fulgurantes...

Olhares
esgarçados
perscrutando
labirintos
e abismos
escondidos
descobrindo
paraísos
e sentidos
fulgurantes
nos instantes
que cintilam
e tão rápido
se esvaem...

"PERSONAS ALADAS MUSICAIS"

TEXTO e IMAGEM de ANA LUISA KAMINSKI

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Paraísos Azuis

Finíssimas linhas e rios
rumorejam, riscam, rebordam
o matizado mapa-mandala
da inebriante memória
em cintilantes cores e fios
desenham asas e histórias
cristais, topázios, opalas
em curvas, pontes, desvios
traçando vidas e flores
iluminando vazios
preenchendo vácuos e vãos
sobrevoando dores e estios
em êxtases, mergulhos, fastios
entrelaçando almas e sonhos
caminhos, mundos e mãos
inventam rendas e rumos
imprevisíveis, risonhos....

(Ana Luisa Kaminski)


"Paraíso Azul"
Pintura de Ana Luisa Kaminski



"Meditação Azul"
Pintura de Ana Luisa Kaminski


CINTILÂNCIAS

No fluir das águas
rugir das cachoeiras
espasmos das pedras
volteios do vapor
vislumbro as cintilâncias
da vida criativa:
dançam as borboletas
suspiram as estrelas
em meu íntimo azulado
respingos verdes, violeta...


(Ana Luisa Kaminski)


"Ninfa Azul no Paraíso"
Pintura de Ana Luisa Kaminski


Parecia não ter fim aquela sede do mundo e a mulher-água tinha muitos afluentes: ternura e graça, poesia e maciez na língua, oásis e plantas irrigadas. Mas assim que toda a verve líquida desejava correr em fluxo contínuo, rochas obrigavam a água a estancar e a se repartir, perdendo força, transformando-se de novo em pequenos lagos isolados. A natureza seguia seu curso em vários movimentos, muitas vezes contrariando a si mesma. Estancava quando queria puxar. Até que, aqui e ali, uma nova reunião das águas se transformava numa cascata que arrebentava as emoções sutis. A ternura e a graça, a poesia e a maciez da língua, os oásis mais puros e as plantas irrigadas, tudo exposto à tempestade.
(Célia Musilli)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Oníricos Olhares

"O Que Vemos, O Que Nos Olha"
Pintura de Ana Luisa Kaminski


"Onírico Orchis I"
Pintura de Ana Luisa Kaminski


"Olhando o Infinito"
Pintura de Ana Luisa Kaminski


"Onírico Orchis III"
Pintura de Ana Luisa Kaminski


"Alma Azul"
Pintura de Ana Luisa Kaminski

"Eu dormia... Um anjo sussurrou-me ... Acordei com teu nome no âmago, na alma, A tua imagem, desenhando-se nas nuvens brandas, mansas e alvas da minha manhã. No caminhar do dia, diáfana dádiva azul incrustando-se na rotina, nos móveis, nas minhas mãos, até desfazer-se. Agora, me deito, faço uma prece e percebo que ainda resta-me mais do que resquícios teus. Resta-me o ser-te, ser-me, o teu ser sem-fim, amalgamado em mim."

(LARA LUNNA)

Ninfas Azuis

"Ninfa Azul"
Pintura de Ana Luisa Kaminski



"Nascimento da Ninfa Azul"
Pintura de Ana Luisa Kaminski



"Ninfa Sonhando Azul"
Pintura de Ana Luisa Kaminski

Alguma coisa azul
e o sul do Sol a mergulhar vagaroso ao Poente.
Alguma coisa tenra, crua e branda,
lasciva ebúrnea d’epiderme ardente.

Algum poema assim,
esculpido em nós de carnalidade perpetuamente terna.
E nós.

[Além, um corpo estirado esguio, vitelino,
deposto no leito preguiçoso d’ incerteza.
E outro
ausente!]

Tombo agora calmamente por dentro dum tempo
que se esmola livre à vereda reprimida p’lo próprio tempo e sou,
e somos,
vertente abrupta, lírica líquida de sopro,
fuligem láctea inopinada p’lo vento.

Alguma coisa azul,
uma pintura pastel, uma escultura d’(en)talhes,
pérolas pálidas,
(e mágoas)
retidas em planos decepados ao sentimento.


(Mel de Carvalho)